Janelas em movimento



07.01.26 -12:57 no Brasil – 08.01.26 4:54 NZ

Confusa, não sei se estou no passado ou no presente. Viajei para o futuro e revejo as coisas do passado. Meu relógio marca o horário do Brasil e meu celular marca o horário de onde estou. Ainda tenho pendências para resolver no Brasil – instalar um certificado digital no note para assinar virtualmente, indiretamente sou uma mulher de negócios (ou uma esposa). Amanhã uma reunião para decidir os caminhos do meu livro infantil – terminei o ano tão empolgada com o parecer da editora, agora deu uma baixada na empolgação. Tantas coisas legais acontecendo; estou em Auckland! Vinte e quatro horas de voo, um fuso horário de 16h, toda a família. Estamos conhecendo a cidade e; vamos de norte ao sul da Nova Zelândia (NZ). Surreal, nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar isso. É louco, a vida nos coloca para ver as coisas em diferentes perspectivas e estou conseguindo ver – sempre quis viajar de mochilão pelo mundo, mas era muito presa as minhas convicções e condições. 

Hoje, estamos escolhendo gastar nosso dinheiro em memórias e viagens que tendem a nos conectar. As crianças estão com dez anos e sabemos que será inesquecível para elas e para nós. Ontem, visitamos Auckland Art Gallery (Toi o Tãmaki), difícil, as crianças estavam inquietas sem paciência para ver as obras (normal para meninos de 10 anos), entravam rápido e passavam rápido pelas peças e eu correndo atrás, eles queriam sair logo e ir à lojinha de suvenir. Antes, achamos uma atividade para as crianças, superlegal, de criatividade com massinhas de modelar e adivinhem: não quiseram fazer – sentamos, Fabiano e eu, nós dois juntos é muito mais fácil e juntos conseguimos explicar, reeducar e não ficou pesado; vamos passar as férias inteira juntos, desejei isso ao longo desses 10 anos – entramos todos e fizemos a atividade da massinha.

Meu jet lag não passou ainda, me sinto cansada quando é madrugada no Brasil e ativa na madrugada aqui na NZ – depois da reunião de amanhã vou ajustar meu relógio com o horário daqui e partiremos de motorhome em direção ao sul. Teremos mais atividades urbanas na capital, Wellington. Antes pararemos em Rotorua para conhecer a cultura Maori muito presente em todo o país – sobre a reunião do livro, preciso decidir qual a forma de publicação, edição com investimento da autora ou edição com investimento da editora. 

Quero destravar meu inglês, perder a vergonha de falar errado, o país é muito amigável, as pessoas são simpáticas e tem gente de todo lugar, muitos asiáticos.

10.01.26 – 6:33 – Hamurana, Rotorua, NZ

Olhando para o Lake Rotorua vejo a cidade de Rotorua do outro lado, dá para ver a fumaça saindo dos geysers, águas termais que tem por aqui – tem muitos vulcões, NZ está em cima de muitos vulcões. Ontem teve um terremoto, não senti nada, mas vi a notícia e a Roberta nos disse pra ficarmos longe da costa. Sinto medo e sinto um desconforto constante. Apesar de ser um lugar muito seguro e de pessoas amigáveis, estou fora do meu país – é estranho estar fora do meu lugar. Tenho medo de me comunicar, preciso enfrentar isso.

As crianças acordaram cedo, queriam logo sair do motorhome para brincar, é verão, frio de 16° por aqui – nossa primeira noite de motorhome em um freedom camping, lindo, na beira do lago – eles se embalam no balanço anseiam por saber o que vamos fazer a cada minuto, quero que eles escutem a natureza. Entendo que, talvez, dizer o que vamos fazer gere segurança e eu procuro fazer isso. Tento informá-los do nosso roteiro diário, embora, nosso roteiro não seja fechado sigo um esqueleto que vamos preenchendo conforme sentimos o lugar, conforme dicas de amigos e conforme conhecemos as pessoas. Hoje teremos uma atividade sobre a cultura maori, as 10h e depois poderemos seguir viagem até Taipõ, uns 80km, nossa próxima cidade.

Um me abraça o tempo todo e é mais tranquilo quando está imerso na natureza. O outro é ansioso, quer sempre estar em algum lugar a frente. Demora para sentir a natureza ou sente, mas não se entrega, quer celular, quer tablet, bate os pés, rói as unhas – o sol está nascendo nas minhas costas e escuto o barulho da tirolesa que tem no parquinho e corre no trilho de ferro, as águas batem na costa, muito vento, patos, cisnes que estão sempre mergulhando com pescoço longo, aquele que forma um coração ao encontrar outro cisne. Eles aparecem mais no final da tarde.

19.01.26 – 22:05 Hokitika, NZ

Viajando no motorhome há mais de 10 dias (11 dias), quase nem escrevi, tantas paisagens preenchendo o lugar da escrita, cênicas, panorâmicas, surreais, tentando ver o sol se pôr, mas sempre tem uma montanha para ele se esconder, os dias são longos com sol quente e vento frio. A brabeza das crianças normalmente acontece na pré- trilha, o ônus diário dos filhos. Hoje foi o Pedro que não queria ir à trilha para conhecer Hokitika Georges, segunda trilha do dia – depois do ranço, foi. Combinei de voltarmos quando desce 10 minutos de trilha, nos 20 minutos ele disse que queria continuar, de boa, sem briga, sem insistir, fluiu como as paisagens, demorei pra acreditar no azul turquesa do rio, todos impressionados queríamos experimentar a água para ver se era de verdade e, depois, simplesmente faz parte, não tem como tirar. Flui como a beleza das trilhas, o balanço das pontes suspensas. Gostamos muito de Cape Foulwind (costa oeste da NZ), simplesmente paradisíaco com uma colônia de focas para observar, foi maravilhoso – no início só víamos pedras e mar e uns minutos de observação elas saltavam aos nossos olhos e ficava fácil diferenciar as focas das pedras. Foi uma trilha de duas horas, uma pra ir e outra pra voltar, no final da primeira hora todos comeram sorvete e lanchamos as tortas que compramos em Westport (wild pies), não tive coragem de experimentar torta de coelho e de cervo, bichos que gosto de admirar – vi coelhos em Rotorua (ilha norte) enquanto corria, muito fofos. 

Já estamos na ilha sul, vivemos tantas coisas, tantas trilhas em Tongario em Wellington, muitos freedom campings e campings selvagens, nós e a natureza – conhecemos the papa musueum, um pouco da história sempre nos sintoniza, eu adorei, as crianças amaram, exploram todo o canto da história da NZ lá dentro, inclusive, sentimos um terremoto, terremoto de verdade, mas de mentira ao mesmo tempo, uma simulação para as pessoas entenderem. A parte dos terremotos e tsunamis, fato da NZ estar em cima de uma placa tectônica e mesmo que nos afastemos de um lado da costa estaremos nos aproximando do outro lado da costa, realmente me impressionou. No outro dia, saímos de Wellington, pegamos a balsa, vento, chuva, paisagens, chegamos em Picton e fomos pra Nelson, mais precisamente Richmond, onde mora uma grande amiga.

Na trilha de Abel Tasman que fizemos com a Robertex, tinha sido a vez do Raul, estava bravo sem causa aparente, quando “desembravou” o outro começou e aí foi tenso: queria voltar, queira voltar, só voltar e acabamos voltando logo após o primeiro trecho (as trilhas são muito bem-sinalizadas e com as distâncias especificadas), conseguimos descer até próximo do mar e ver uma caverna formada pela natureza e suas conchas – na volta encontramos com as famosas wekas, endêmicas, aves grandes e invoáveis, super simpáticas e atrevidas. Desses onze dias ficamos três dias em Richmond, na casa da Roberta que nos recebeu com tanto carinho e acolhimento. Uma vida tão contrastante da minha, as crianças logo ocuparam todos os espaços da casa, eu atrás para alertá-los e conte-los, Pedro já pegou o capacete da bicicleta do Leo, posicionada em um local de louvor da casa, deu logo para perceber que era algo precioso pra ele (sei bem porque já pedalei e investi muito dinheiro nesse esporte e não gostava nada, nada que pegassem os meus equipamentos, no  tanto que desde que as crianças nasceram não comprei nenhuma peça pra bicicleta, nem capacete tenho mais). Eles escolheram viver longe do Brasil e de todos – eles têm dinâmicas individuais, refeições em horários diferentes e se alimentam com o que gostam, sem culpa – eu, passo o ano tentando e me esforçando para que tenhamos momentos de refeição em conjunto com toda família, sorte que eu gosto de margarita (pizza) senão só comeria margarita. Senti muita tranquilidade na casa, como uma janela azul de madeira com vidros quadriculados me possibilitando enxergar um pé de limão siciliano do quarto em que dormimos. Estávamos na metade da viagem, havia planejado isso, uns sete dias na ilha norte, três dias na Roberta e os demais dias na ilha sul e – engraçado que, Nelson representa o centro, metade da distância da NZ. Foi, sem esforço, bem estratégico – tivemos uma pausa do motorhome sem precisar montar as camas dentro do carro, dormimos em camas muito confortáveis e ficamos boa parte do tempo conversando na cozinha, assunto que não acabava mais, lavamos as roupas sujas, literalmente. No final dos três dias, buscamos o motorhome no centro budista em que minha amiga faz suas práticas e me despeço dizendo para ela ficar bem, por que falei pra ela ficar bem? Sei que ela teve uma perda importante e recente que aliás queria muito ter conversado mais sobre, mas são assuntos tão delicados que sempre tenho a sensação de não ser suficiente. Mas quem sou eu pra dizer pra ela ficar bem? Ela está bem, na vida em que ela escolheu, no tempo dela se encontrando com ela mesma a cada hora. Preciso dizer ficar bem pra mim, eu preciso ficar bem, aceitar minhas escolhas, minha invisibilidade (temporária) na falta de comunicação em outra língua (quando íamos para Kaiteriteri minha amiga, ofereceu carona para um casal de ingleses e me disse aproveita para treinar o teu inglês”, porque que ela foi dizer isso, travei, não falei quase nada, entendi boa parte da conversa, mas minha mente ficou boa parte tensa com a obrigação de falar em outra língua); na dependência que crio ou deixo ser criada pela facilidade da comodidade.

Contudo, me despedi de Richmond dirigindo o motorhome, coisa que ainda não tinha feito, estava com medo de dirigir do lado direito, mão inglesa, vinte minutos de confusão misturada com a euforia de dirigir quase um caminhão, seguimos pela costa oeste.

Existe uma rotina pra esse tipo de viagem que mistura liberdade e desafios constantes exigindo adaptação diária para gerenciar espaço, energia, água e resíduos (motorhome self-container), precisávamos parar em lugares específicos para descarte dos resíduos, encher os reservatórios de água, carregamento de baterias e organização de itens, como: ir ao supermercado, comprar mantimentos, planejar as refeições e prepará-las. Uma delícia que encontrávamos umas Farms no caminho e parávamos para conhecer – umas das dicas de uma amiga que conheci por whatsapp, prima de uma amiga – reforçando a minha crença de que os pernambucanos são muito calorosos, mesmo os que não moram no Brasil – a ideia é nos encontrarmos em Christchurch, cidade em que vamos entregar o motorhome.

O Pedro externou que estava cansado de trilhas, talvez tenhamos mesmo que tirar um dia de pausa, chegar mais cedo em um camping e não fazer nada. O Fabiano também não estava legal, até os mais animados tem seus momentos, ele tem as tensões dele eu não tenho obrigação de aliviá-las. Minha menstruação está pra descer, estou em outra tensão, TPM e, aquela angústia de ficar menstruada durante a viagem, bom que temos banheiro com água quente em todo lugar que vamos. Preciso comprar absorvente. Como é mesmo absorvente em inglês? Cansada, todos dormem, vou dormir.

21.01.26 – 23:57, Wannaka, NZ.

Seriam páginas matinais se eu estivesse no Brasil, whatever.. 

Um silêncio e muita luz, coisa que economizamos quando estamos no freedom camping, mas hoje estamos no Holliday Park. Escuto o celular do Fabiano, difícil se desconectar fala dos EUA, Groelândia, dos protestos, das chuvas fortes que está acontecendo na ilha norte onde estávamos na semana passada. Não conseguimos sentar e planejar, normal pro estilo da nossa viagem, vemos o tempo, sentimos o lugar, tentamos perceber o que estamos precisando (descansar, trilhar, nadar ou não fazer nada). Hoje choveu, chegamos cedo, aproveitamos a parte urbana da cidade e visitamos os Puzzling World pela manhã.

Brincamos no parque, entrei no Lake Wanaka, gigante, lindo, presente, de água gelada, cristalina, verde azul. As pessoas nadam e são tão pequenas na imensidão dessas águas e montanhas que nos envolve.

Refletimos sobre a abundância e a escassez, não só a de recursos, mas a mentalidade da escassez, focamos no que nos falta mesmo que não nos falte. 

Hoje me perdi por um instante.

A riqueza da natureza é surreal. Aqui existe uma fartura de confiança, talvez tenha crescido na necessidade de confiança. Sinto frio, vou deitar e me esquentar, tenho abundância de calor aqui dentro desse mortorhome, só preciso me aproximar.

23.01.26 – 23:02 Athol, NZ

Mínima 8°, máxima 12°

Senti muito frio logo que chegamos nesse camping, 10°, só havia nós – percebi logo que ele não queria ficar. Eu gostei, organizado, havia os lugares indicados para estacionar, embora estivesse vazio, nobody. Logo na entrada, tinha uma casinha com as regras do camping e um local para deixar o pagamento, só em dinheiro. Chegamos aqui quase seis horas da tarde, ele queria seguir eu pedi pra ficarmos mesmo de motorhome é cansativo para as crianças estar em movimento o tempo todo. Paramos, exploramos um pouco o local mesmo com muito frio. Na cozinha do camping tinha coisas que outras pessoas deixaram e era livre para pegarmos. Pegamos uma latinha de coca-cola e um litro de leite. O Pedro deixou sua crocs usada, pois ganhou ontem uma nova, azul vibrante.

Ele e eu temos nossas discordâncias, formas diferentes de ver as coisas. Ele gosta de um camping eu gosto de outro – eu gosto de entrar em casa, na garagem com o carro de frente e sair de ré; ele gosta de entrar de ré e sair de frente – eu gosto de olhar pra minha casa assim que chego e quando saio; ele gosta de ter a visão da rua quando sai pela manhã, enfim – pequenos exemplos do nosso microcosmo.

Ele queria voltar pela costa leste, passar por Dunedin, a segunda maior cidade da ilha sul; eu voltaria pela mesma estrada até Queenstown e depois seguiria pela estrada central (state Highway), para avistar o Mont Cook, visitar o lake tekapo, ver as estrelas, natureza selvagem, parando nos campings que vão surgindo (o aplicativo dos campings que estamos usando é ótimo, rankers camping NZ) e vamos escolhendo conforme a nossa localização. Ele precisa ter uma confirmação, precisa ter a reserva, ter um plano bem traçado, definido previamente. Senti que foi difícil para ele quando paramos, a primeira vez ainda na ilha norte em Kaimanawa forest park, na beira do rio, sem ninguém, sem estrutura de camping, só nós, ele logo disse que não queria ficar, as crianças desceram e adoraram, no fim, caminhamos pelo rio, observamos e sentimos nos nossos pés as diferentes formas das pedras, tomamos banho gelado e nos aquecemos no sol quente e fizemos até fogueira no final do dia. Fico pensando que se eu hesitasse ou sentisse medo não ficaríamos lá nem aqui hoje. As crianças gostam desses lugares tanto quanto os campings mais estruturados. Nos complementamos apesar de, algumas vezes estarmos competindo sem muita razão.

24.01.26 – 22:54 Manapouri, NZ.

É incrível acompanhar os contrastes desse país, viajando do norte ao sul vejo lugares planos e montanhosos, mar, rios e lagos, cores, pessoas, a cultura Maori parece ser mais presente ao norte, a população é maior por lá também – dizem que tem mais ovelhas do que gente na NZ e – a população de toda a NZ é quase a metade da população de Pernambuco, Estado do nordeste do Brasil em que moro.

Hoje ligamos o aquecedor, durante a viagem até os Fiords, fomos com o ar condicionado ligado na temperatura de 20° só que como na rua estava 10°, o ar dentro do carro saia quente. Costumamos deixar 22°no quarto das crianças, em casa, no Brasil, para esfriar o carro e para dormirmos a noite por causa do calor. Foi engraçado ver o ar sair quente dentro do motorhome.

Viajamos 3h do camping em que dormimos até Fiorland National Park. Amazing, gigantesco, duro, frio, sombrio – as vezes a floresta aparecia com seus galhos contorcidos e velhos, estavam lá há muitos e muitos anos.

Curvas e mais curvas, contornamos montanhas, hora passamos por dentro delas, tempo chuvoso, as curvas angustiavam um pouco, andamos e andamos e só víamos montanhas pela janela, andamos por suas entranhas, algumas com neve no topo e muitas com pequenas cachoeiras, cachoeirinhas descendo delas. Nos fiords fizemos um passeio de barco, turístico, como os ônibus das grandes cidades fazem, um city tour – em Auckland fizemos – foi um fiords tour, calmo, o tempo se abriu para ficarmos na parte de fora do barco (quem aguentasse o frio). Muitos campings selvagens no caminho, paramos em um para tomarmos o café da manhã – o banheiro, disseram que era horrível, o primeiro banheiro publico sujo que encontramos os sons dos pássaros são constantes, ouvimos o tempo todo, inclusive em alguns banheiros públicos das cidades como sons ambientes. Fomos recepcionados por um Kea, muito curioso e enxerido, em algum momento que paramos para esperar nossa vez de passar nas pontes de mão única. Fomos e voltamos para ver os Fiords, passamos por Te Anau na ida e na volta, paramos para comer num único lugar, em Manapouri, uma antiga igreja que hoje é um restaurante – agora estou aquecendo meus pés no aquecedor ligado embaixo da mesa da cozinha pra tomar café.

26.01.26 - 9:51 – Cromwell, NZ

Paramos nesse freedom camping de frente para o lago, tenho fotos de todos os campings da janela do motorhome dá pra fazer uma série: on the road, windows ou janelas em movimento. A neve ainda aparece em cima da montanha, está mais quente que lá nos fiords.

Ontem foi realmente especial, em Manapouri, passamos para conhecer a livreira do fim do mundo, Ruth Shaw, escritora, do livro que estou lendo – ela tem uma livraria, a única, muito charmosa em Manapouri, especializada em livros infantis chamada: Wee bookshop. Na verdade, são três livrarias em uma. Antecipei a leitura do livro por causa da viagem, participo de um grande clube de livro, bookster pelo mundo, que sugere um livro por mês de diferentes países, deveria ler em abril, contudo estou lendo agora. Muito contente de incluir essa visita e de ter conhecido a autora, conversei com ela e pedi para autografar o livro, ela adorou a capa e a versão em português, ficou surpresa, eu acho – e, eu adorando ter ela presente nas minhas leituras e de uma certa forma me acompanhando nessa viagem. Pude apresentar meus filhos e família, tiramos fotos, treinei meu inglês aquele tipo de presença rara que sentimos e que vai me acompanhar pra sempre.

Ontem, assistimos Nárnia, todos juntinhos – acabei não escrevendo. Hoje vamos para Tekapo, vou continuar a escrever de lá; agora: café da manhã.

22:09 - Lake tekapo

Mais um dia de ser figurante nessa imensa beleza, morros e montanhas, um lago azul turquesa, extraordinário. Que trilha, Mout John, gostei de fazer as trilhas sozinha, e essa então, foi especial 8km costeando o lake, a cor desse lago, hipnotiza e a visão lá de cima, acalma, assenta, alinha. As crianças não quiseram ir, revezamos fiz a trilha a tarde e o Fabiano vai fazê-la amanhã. Tento me agarrar no banho de natureza que estamos tendo, entretanto, 20 dias dentro de um motorhome com as crianças está cansando, os últimos dias estão chuvosos e mesmo parando em lugares com playground e pula-pula o Pedro incomoda, quer fazer as coisas do jeito dele, quer fechar a cortina enquanto o Raul quer deixar aberto, ele manda, quer controlar. Na viagem, o Fabiano está muito presente e eles parecem escutá-lo mais, comigo menos. São muitas emoções que passam, mas se repetem todos os dias. Ficam bravos, brigas de irmão, reclamam, querem loja de mangá, de lego, quer internet. Eu estou precisando das minhas manhãs para escrever e ler já está na hora deles irem para escola. Talvez, também estejam cansados, embora sei que terão boas lembranças de toda essa aventura, da gente segurando as portas dos armários do motorhome em movimento, quando esquecemos de travá-las. 

27.01.26 – 9:09

Hoje sol, liguei o carro para carregar meu celular e vou começar a tirar os casacos.

28.01.26 – 10:16 – Christchurch, NZ

Muitas coisas na cabeça me prendem para fazer nada. Fico no motorhome, enquanto as crianças saem para brincar e o Fabiano para resolver o nosso lodge para nos alojarmos essa noite e; comprar o suco para o café da manhã, organizo as coisas de dentro, o motorhome vai ser entregue hoje. Dobro todas as roupas de cama, cobertores e toalhas e os coloco na parte superior da cabine.

O sol está brilhando, saio depois de arrumar as malas e ir me despedindo desse estilo de vida – vejo um rapaz chegando da corrida, do outro lado uma moça se alongando com seu tapete de yoga, as pessoas parecem respirar movimento. Quero voltar pra casa, fazer minhas coisas, me exercitar, sentir a areia quente, estudar outros idiomas, nadar, surfar, ir ao cinema, teatro, pedalar mais, quem sabe começo a fazer SUP e a remar como as pessoas aqui. Eu não sei se é certo ou errado, mas todas as vezes que viajo sinto vontade (e muita) de voltar para casa e começar a fazer as coisas. Sinto falta da praia, da minha praia entre o Paiva e Itapuama, enseadas no canto esquerdo logo que descemos as dunas – sentir a água quentinha, abrir o guarda-sol e de tempo em tempo me proteger do sol. Passar mais vezes o dia inteiro na praia levar lanches e as pranchas, ler um livro, sentar, conversar. Viajar é tão bom e voltar é melhor ainda, dá um reset e voltamos com a energia renovada – quero viver, viver e viver. As crianças voltaram, Raul sempre muito carinhoso e amável me enche de beijos. O Pedro reclama do frio, quer fechar porta, mas estou aqui fora escrevendo bem próxima a porta, vou entrar para preparar nosso breakfast e dar goodbye para nossa casa móvel.


Tantas coisas que foram vividas e não foram escritas, tantas emoções sentidas e contidas no silêncio. Pessoas que cruzaram nosso caminho que nos encontraram, trocaram, nós que crescemos em família, na partilha das angústias e das alegrias, nos permitimos estar livres, vulneráveis (em um lugar seguro) para viver o presente de estar conhecendo parte do mundo.

 








 

 

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