Crônica de Memória do chão
Crônica de memória do chão
Estava tão ansiosa por esse momento de ser a curadora do mês do nosso clube do livro, fiquei com o Estado de Santa Catarina e há tempo venho pesquisando escritores e escritoras e seus livros para leitura. Inicie o trabalho como se estivesse fazendo uma revisão bibliográfica, quase uma revisão sistemática, com critérios de inclusão e exclusão. Decidi que seria mulher, uma escritora que estivesse viva para representar algo mais contemporâneo e que fosse uma prosa, um romance, cortei os contos e poesias (nada contra, mas para facilitar as buscas precisava delimitar), e por fim, algo que fosse histórico e que refletisse um pouco da cultura catarinense. Alguns nomes, das muitas que têm, foram:
Edla Van Steen, já falecida. Luciana Tiscoski, escreveu o livro Área de broca, contos. Alessandra Boos, escreveu Vermelho vivo, descobri tardiamente.
Ieda Magri, grande aspirante para compor minhas leituras, nasceu em SC (como todas as outras) e vive no RJ – escreveu Um crime bárbaro, lançado em 2022, conta a história de um assassinato numa cidade bem pequena no sul do país. É sobretudo a história de uma menina, de um lugar e de uma comunidade e, acompanha a história da escrita e suas possibilidades.
Os não escolhidos também serão lembrados, que fique aqui registrado. Tantos livros, a vontade de lê-los só ia aumentando. Um nome saltava aos meus olhos desde o início, Urda Alice Klueger autora de Verde vale, ganhou prêmio do conjunto da sua obra, é um romance histórico que representa a imigração alemã no vale do Itajaí (SC) é um livro de memória e de identidade dos imigrantes – por sorte de uns e azar de outros – só disponível no kindle.
Na ânsia de decidir e na angústia das escolhas, pois quando fico em dúvida deixo a dúvida de lado e parto para uma outra escolha. Por exemplo, se estou na dúvida entre dois filmes e não consigo decidir no momento, acabo escolhendo um terceiro que não estava no confronto. Dessa forma, pesquisando e ouvindo um podcast sobre escritoras catarinenses[1], um episódio com a Urda me deparo com um nome a de um escritor, homem, Marcelo Labes. Mais de 13 livros publicados: Enclave (livro de poesia), Paraízo-Paraguay, Três Porcos, Deus não dirige o destino dos povos. Ganhou vários prêmios literários sem estar nas grandes mídias.
Amigos, mais de trinta anos de diferença na idade entre ele e Urda, mas muita semelhança nos ideais, no estilo de vida e na produção literária, segundo uma entrevista[2] com os dois escritores, Labes disse que Urda está na gênese dos seus livros e Paraízo-Paraguay dialoga com Verdes Vales.
Contudo, porém, todavia, acabei aderindo a facilidade de entrega e disponibilidade dos livros, “bati o martelo”, Marcelo Labes foi escolhido – Memória do chão, publicado pela companhia das letras – todos os outros livros dele foram publicados por uma editora independente (Caiaponte).
Adoro a palavra chão, não sei explicar, só sei que temos uma perspectiva muito diferente quando estamos no chão. A arte da capa me encantou, um menino com um tapa olho me fez lembrar daquele dito popular, e que meu orientador sempre dizia: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Não sei ao certo o quanto isso tem a ver com a obra, embora o protagonista se destaque muito – não por seu talento ou excepcionalidade, mas talvez – pelo lugar de onde veio, de suas condições socioeconômicas.
O menino aparece na frente entre outros meninos e meninas mais ao fundo, de costas, com menos destaque e na escola faz muito isso, inconscientemente nos faz, nos molda e nos força a responder (indiretamente) quem somos entre os outros? Uma identidade ainda em construção, um eu em formação – e nos exigem tanto que sejamos (o mais popular, o mais inteligente, o que já sabe o que quer, o que não quer nada com nada, aquele que está na margem e, é aqui que quem tem um olho é rei). Um pequeno diferencial pode gerar grande poder ou uma grande exclusão. A capa, realmente, arrasou ficaria olhando para ela e pensando várias coisas.
Sai para correr e fiquei pensando na história do livro e em sobre o que escrever, quais sentimentos a história – do Rafael, escrito em primeira pessoa, assumidamente uma autoficção – me traz. Corri pensando nas muitas bebedeiras e ajuntamentos que fiz com os amigos e amigas na minha própria casa e fui tentando ir mais para trás na história, ensino médio – minha não foi na minha formatura, minha irmã estava no Japão? Não. Onde ela estava?
Na escola, eu tinha dois grupos, minhas amigas, as que moravam em Cachoeirinha (Eu, Juli, Fe, Rafa e Priscila) e que os colegas diziam que éramos do interior pois morávamos na região metropolitana de POA, isso realmente criava um afastamento. O meu outro grupo era o do futsal, fazia parte do time feminino da escola e nesse eu me sentia muito respeitada, time que nasceu no ano que entrei e que venceu no ano que sai. Antes do ensino médio – continuava correndo – e, algumas outras lembranças tomaram a minha mente.
Cai. Rolei no chão, olhei para os lados para ver se alguém viu, não, ninguém para rir, fiquei sentada por um tempo tentando entender o que aconteceu. Cai, no percurso que sempre faço, na calçada, não era trilha, não tinha lama, só o chão mesmo, normal, será que estou envelhecendo? Não, sou muito nova para cair assim, o que eu estava pensando, o que eu senti no instante dessas memórias. Corri, caminhei, corri e caminhei pensando o que me levou ao chão (literalmente). Será que Rafael também caiu? O chão do livro também pode ser literal? Ou é só conotativo? O quanto que a experiência escolar nos molda socialmente? Lembro da parte do livro em que a colega que ele conversou, ambos já adultos, ela contou que nunca esteve realmente ali, na Evangélica. Fiquei pensando o quanto, realmente, conseguimos nos afastar do que nos feriu. Se é que conseguimos. Algo fica encoberto? Caolhos ou não carregamos os esfolados e as crenças de algum chão.
[1] Podcast sobre literatura catarinense: https://podcastposfacio.substack.com/p/livros-para-conhecer-a-literatura
[2] Entrevista com Urda Alice Klueger e Marcelo Labes:
https://open.spotify.com/episode/5ZfFixOxFebrOYrfdOYgbC?si=P4-t04IVQTebE4z5aBrVkg

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