Niéde Guidon: uma arqueóloga no sertão
Niéde Guidon, muito mais do que uma arqueóloga
A biografia de Niede Guidon é realmente fascinante. Ela foi escrita por Adriana Abujamra e publicada pela editora Rosa dos Tempos. Este livro marca o início da série "Coleção Brasileiras" e recebeu o prêmio Jabuti na categoria científica.
Li o livro em pouco tempo, pois a narrativa é envolvente e, de certa forma, me transportou de volta à viagem que fiz ao sul do Piauí este ano. Enquanto avançava na leitura, vinha à minha mente cada lugar por onde passei, especialmente aqueles onde a presença de Niede Guidon parecia ainda pulsar, mesmo sem tê-la conhecido pessoalmente.
Durante a expedição, percebi como a trajetória de Niede influenciou minha percepção sobre os sítios arqueológicos, a paisagem e as pessoas locais. Sentia como se as descobertas dela tivessem moldado não só a história da região, mas também a maneira como eu vivi e compreendi cada momento da viagem. Foi uma experiência enriquecedora e inspiradora, que me fez valorizar ainda mais o legado dessa mulher extraordinária.
Ela faleceu algumas semanas antes de iniciarmos nossa aventura para o Piauí. Lembro que, nesse período, vários comentários surgiram em nosso grupo sobre a importância histórica dessa mulher extraordinária. Nossa jornada começou no Tocantins. O objetivo era percorrer as serras das Confusões, do Viana e da Capivara em comboio de 4x4, acompanhados de outras famílias, dormindo em barracas de teto.
Pensar que Niede Guidon desbravou o Piauí na década de 70, em plena ditadura militar, torna nossa experiência ainda mais marcante. Sua primeira tentativa de chegar à região foi em um Fusca, mas, devido a uma ponte caída, não conseguiu atingir o destino. Somente em uma segunda investida, dessa vez em uma Rural e acompanhada de colegas pesquisadores, Niéde pôde finalmente chegar ao local e iniciar suas pesquisas.
Além da aventura pelas serras, a leitura da biografia de Niede ampliou profundamente minha admiração pela Serra da Capivara, pelos moradores e amigos que conhecemos ao longo da expedição. Cada encontro com a comunidade local reforçava o legado transformador deixado por ela. Ao conhecer mais sobre sua trajetória, senti-me inspirada a valorizar ainda mais a força das mulheres que desafiam limites e constroem histórias.
Viajar, aprender sobre a história do lugar, conviver com as pessoas e conhecer a comunidade fez com que eu revivesse a viagem e compreendesse, de forma ainda mais profunda, o quanto Niéde Guidon foi determinada, visionária e atuou em prol do povo e das mulheres que viviam ali. É claro que nem tudo são flores, tem um capítulo que borda essa perspectiva: Deus e o Diabo na terra do sol. Traz a perspectiva das pessoas que tiveram que deixar suas casas moradias dentro do parque da serra da capivara.
Yumie Okuyama *
Escrito em 02/12/25

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