Nadando em profundidade
Nadando em profundidade
Eu a vi, ela estava entrando em casa, sozinha, com o olhar para o chão que puxava ainda mais seus ombros, juntou alguns brinquedos, ouviu a mensagem da mãe dizendo que estava tudo bem. Ela trocou-se, colocou o biquini foi para piscina — usava touca, e os óculos de natação estavam apoiados na testa; o olhar estava opaco, sem brilho. Antes, resolveu tirar as folhas que caíam do inverno chuvoso e preenchiam a piscina. Caminhou, percorreu toda a raia, limpando o que havia no caminho. Ela olhou para uma das tampas dos ralos do fundo da piscina, estava solta e seguiu até lá para recolocá-la no lugar.
No espaço ínfimo de tempo em que puxava a tampa com os pés e arrastava para tampar o buraco seu pé ficou preso, seu corpo travou, o fluxo de água que acompanhava continuou, embora algumas moléculas de água se chocavam com o seu próprio corpo ali parado. Sentiu um desconforto no tornozelo, mergulhou, tentou alcançar o pé, mas o empuxo não facilitou, forçou a subir para a superfície, tentou puxar o pé e parece que quanto mais mexia mais ele se prendia e foi tomada por uma ansiedade sarcástica, seus olhos até brilharam. O vento a fez sentir frio.
O ralo a aprendeu ali, tinha os braços livres, mas não conseguia se soltar, o frio a atravessava a cada instante que passava ali parada. O vento arrastando de volta as folhas secas sem poder tirá-las e, assim, veria tudo o que lhe prendia, os pensamentos, sim eles, são implacáveis e sádicos, muitas vezes nos enganam com promessas de beleza e intelectualidade.
Ela, então, movimentava os braços, os braços estavam livres e assim, nadava braçada a braçada, foi o tempo do aquecimento para se sentir mais livre a cada virada. Sem contabilizar as chegadas foi se desvencilhando do ralo que jamais teria lhe prendido os pés e dos pensamentos rasos que poderiam ter a deixado inerte.
Nadei e não a vi mais.
Yumie Okuyama
Reescrito em 05/11/2025 nos encontros de quarta - "Pense Nisso".
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